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A vida da Avenida Almirante Reis dava um filme

Durante três fins de semana, o geógrafo Aquilino Machado guia-nos num percurso virtual pela Avenida Almirante Reis dos cinemas populares, dos cafés e das cervejarias que nos transporta para uma boémia lisboeta vibrante e desafiadora das convenções da ditadura. Os filmes populares do Cinema Lys, as temporadas de verão do Cine Esplanada Portugália e as estreias no Cinema Império são três histórias que aqui antecipamos deste filme que não vai querer perder.

Os cinemas e outros lugares de encontro na Avenida Almirante Reis: uma memória emocional de resistência ao Estado Novo

MAPA DO PERCURSO

Cinema Lys /Roxy

O Lys era um cinema de registo popular situado no gaveto entre a Avenida Almirante Reis e a antiga Rua do Registo Civil. A programação assentava em filmes de reprise, aliás, como todos os cinemas populares desta época, que se situavam no eixo da Rua da Palma – Avenida Almirante Reis. Calhou ser construído num terreno de estranho aparato, o que lhe moldou uma forma insólita e divertida, tão próxima de uma proa de um navio. O seu promotor era um advogado de renome, de nome Abraão de Carvalho, que pediu ajuda ao engenheiro Machado Rodrigues para executar o projeto. O mesmo ainda apurado pelo arquiteto Tertuliano Marques, o mesmo que projetara o Chiado-Terrasse.

A abertura ocorreu perto do Natal de 1930 e foi uma festa de filmes que começou com uma comédia alemã,  seguido de um drama, para depois ser rematado por um filme português e finalizado com um documentado de índole nacionalista. A sua vida foi pontuada por dramas e ficções alheias “ao lugar, ao tempo e aos costumes”, como nos escreveu José Rodrigues Miguéis.

No ano de 1973, o cinema sofreria algumas alterações que lhe permitiram acautelar alguns melhoramentos, mas acima de tudo passar filmes de estreia. Mudou de nome e tudo, passando-se a chamar Cinema Roxy. Mas os tempos eram outros, e os pinocas de bairro já não o frequentavam como antigamente, à procura de “um piano desafinado e míope a trotar ao longo dum Far-West que nunca existiu senão no celulóide” (Rodrigues Miguéis, 1968: 203). Encerraria nos tempos da nossa Democracia, quando as cadeiras acumulavam pó e a desilusão da traição de um bairro a um lugar encenado para derramar gargalhadas e lágrimas cinéfilas.

 

Cine Esplanada Portugália

Na Cervejaria Portugália existiu um terraço onde passavam filmes ao ar livre. A ideia fora copiada de outras paragens, de outros bairros de Lisboa, como aquele que existia na Esplanada Monumental, na Avenida Álvares Cabral.

O Cine Esplanada abria só para as temporadas de Verão, ao longo de quatro meses, com sessões de cinema todos as noites. O amparo das noites estreladas era então a melhor companhia de todos aqueles que assistiram às sessões entre o dia da sua inauguração, 4 de Junho de 1956, e o seu encerramento, ocorrido uma década depois. Deste registo de filmes ficará para sempre marcado aquele que aconteceu logo no primeiro mês de existência: no dia 4, o filme “Uma boca sonhadora”, no dia 6, “Cantinflas em Calças Pardas” e no dia 10, “Luzes da Ribalta”, de Charles Chaplin, inusitadamente catalogado para maiores de 18 anos.

 

 

Cinema Império  + Estúdio  

O Império diferenciava-se dos cinemas populares da Avenida Almirante Reis por ser um cinema de estreias e não de reprises. O Cinema Império era um cinema majestoso, um empreendimento pensado para brilhar numa praça esboçada pelo Estado Novo. Era o tempo das grandes salas de cinema, e esta foi inaugurada no ano de 1952, sob risco dos arquitetos Chorão Ramalho e Frederico George. A sua estreia ficou marcada com a passagem do filme “La beauté du diable”, uma produção franco-italiana, realizada por René Clair, e interpretada por Gérard Philiphe e Michel Simon. Três anos mais tarde abriria o Café Império, projetado  pelo arquiteto Chorão Ramalho, e integrando apontamentos artísticos de Luís Dourdil e Martins Correia.

Tanto no café, como na sala majestosa do Cinema, ocorreram diversos espetáculos musicais, desde aqueles que tiveram como intervenientes Madalena Iglesias e Artur Garcia até aos sons do yé-yé. Mas outras investidas musicais ocorreram no Cinema Império, na década de cinquenta, sendo que aquela que terá granjeado mais popularidade ocorreu com o concerto da Orquestra de Count Basie, com o próprio ao piano. Nos anos sessenta, seria a vez de Quincy Jones e de Cliff Richard e os seus Shadows que se exibiram nos 11 e 12 de Dezembro de 1965, com apresentação de Pedro Castelo.

Em 29 de Outubro de 1964 inaugurou a sala Estúdio do Império, sob o risco de Frederico George. Era o início de uma nova geração de salas associadas às grandes salas de cinema, e que apostavam na fidelização de um público mais exigente e com novos anseios culturais. A estreia aconteceu com o filme “Os Chapéus de Chuva de Cheburgo”, de Jacques Demy, mas durante a sua existência o seu balanceamento foi sempre centrado por uma programação em torno de cineastas que as grandes salas normalmente não almejavam apostar. A respeito desta inauguração, um crítico de cinema do vespertino “Diário de Lisboa” escreveu o seguinte:

“Com um público selecionado – escritores, artistas, críticos, cineastas e personalidades de relevo da vida intelectual e social Lisboeta – foi projectado, em ante-estreia, a última obra de Jacques Demy, “Os Chapéus-de-chuva de Cherburgo”. O autor de “Lola”, um jovem e talentoso realizador, conquistou com este filme dois prestigiados galardões: a “Palma de Ouro” de Cannes e o Prémio Louis Delluc. Apesar da sua originalidade e fantasia, cremos que “Les Parapluies de Cherbourg” tem um mínimo de qualidade espectacular para ser susceptível de interessar a um público mais vasto”.

©Arquivo Municipal de Lisboa
©Arquivo Municipal de Lisboa
©Arquivo Municipal de Lisboa

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