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Uma conversa entre Beatriz Batarda e Isabela Figueiredo

A última sessão da comunidade de leitura Ecotemporâneos deste Abril em Lisboa acontece este sábado, 17 abril, pelas 15h30 nos jardins do Museu de Lisboa - Palácio Pimenta. A convidada é Beatriz Batarda e no centro da conversa, moderada por Cláudia Galhós, vai estar o livro "Caderno de Memórias Coloniais", de Isabela Figueiredo. A propósito desta conversa (que podem ver em transmissão online na nossa página de Facebook), a atriz lançou quatro perguntas à escritora. Eis o resultado desta troca de mensagens.

Beatriz Batarda (BB) - Quando apresentámos a leitura encenada do teu livro, em 2016, a propósito do ciclo “Retornar- Traços de Memória”.  Onde tu, no palco do Padrão dos Descobrimentos, ouvias a minha voz enquanto manuseavas objetos da tua história e revisitavas as tuas memórias à vista do público, aconteceu alguma coisa que alterasse a tua relação com o livro? Ou viveste essa experiência como um prolongamento natural do Caderno?

Isabel Figueiredo (IF) – Penso que nesse momento, tive a consciência de uma coisa importante, que o livro é realmente uma obra séria, que irá ficar na história da literatura como um marco. Digo isto porque, ali, não foi um acaso ser ali, eu ouvia o livro na voz de outra pessoa e via as pessoas na audiência, e aquilo era tão material. Havia uma fusão entre ti e mim, tu eras a minha voz. És muito parecida com a minha mãe. É perturbador. E ali tu eras eu. Eras o meu passado. Foi fundo. Sim, ali tive consciência da obra.

BB - A menina do livro és tu. Mas quando o livro se materializa, a menina torna-se numa personagem?

IF  – Não. Ela não é uma personagem. Aquela menina sou eu, sinto carinho por ela, até me comove às vezes. Eu sou essa menina que olhou para o mundo e sentiu-se desajustada a ele. Aterrei ali e estive sempre de fora, era um alien mascarado, fingido, andei fingida toda a minha infância e adolescência. Sabia que o meu olhar tinha propriedade porque tive dois grandes mestres, a mensagem de amor do Cristianismo, e a lição de humanidade que me chegava através da literatura. E mais, a minha mãe e o meu pai eram pessoas bem formadas, eram pobres, e apesar dos comportamentos colonialistas eram pessoas generosas. Se o meu pai tivesse andado no Alentejo, na jorna, a fazer as pessoas trabalhar de sol a sol, não teria sido muito diferente. Era assim.

BB - Quando li o teu livro, a primeira coisa que me impressionou foi a tua coragem. A liberdade com que trazes a nós a violência da linguagem. Achas que depois dos movimentos anti-machistas, anti-racistas, e anti-fascistas que temos abraçado globalmente terias escrito este livro?

IF - Ás vezes sinto que estou a viver um período parecido com aquele que se seguiu ao 25 de Abril em Portugal, em que tudo era revolucionário, as canções eram de intervenção, as paredes estavam pintadas com mensagens marxistas-leninistas, e não havia outra voz. E eu sinto que estamos a atravessar uma fase parecida, profundamente univocal, com um discurso fechado. É importante passar por isto. Mas para nós, pessoas que criam, é péssimo. A minha maneira de comunicar com o outro é dando aquilo que eu própria recebi. Eu recebi aquela violência. Hoje tenho de explicar a metáfora que uso no livro, quando me refiro a Lourenço Marques da época como um campo de concentração. Agradeço ter escrito o Caderno há 10 anos porque se tivesse de escrevê-lo agora, não sei como seria.

BB – Desde que conhecemos a vida em confinamento assististe a algum espetáculo emstreaming, ou procuraste cultura online?

IF – Não vi nenhum espetáculo em streaming, não. Admito que, no futuro, de alguma maneira possa vir a ser importante criar uma forma híbrida de fazer chegar espetáculos às pessoas que não têm acesso à cultura. Imagina estar numa aldeia isolada e ter encontro marcado com a comunidade para assistir a um espetáculo em streaming. Mas eu, Isabel, a 10 minutos do Teatro Nacional Dona Maria II ou São Luiz, ou qualquer teatro, quero estar na sala e sentir a energia do palco e responder com a minha energia, quero fazer parte dessa comunicação entre vocês e nós. O streaming, isto não pode substituir. Para o acesso ao conhecimento, o streaming tem sido muito bom, para quem quer fazer cursos e atualizações que de outra maneira não poderia fazer, ganha-se acesso a cursos de todo o mundo. Agora para a Arte? A Arte precisa da presença, do corpo, e do objeto. Tentei ver a exposição de René Lalique que está disponível no site da Gulbenkian, e não é mesma coisa. Eu quero ver aquelas peças, quero estar ao vivo a ver os pormenores daquele vidro, daquele desenho. Para mim tudo tem uma energia própria, mesmo a pedra tem uma energia, Stonehenge tem uma energia. A Arte precisa da presença.

Beatriz Batarda, atriz, em Cascais. FOTO TM

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